Brilho

Sempre à espera que os seus dias brilhem!

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O dia antes


Terça-feira é aquele dia que não aquece nem arrefece.

É o dia que antecede o dia de mercado, aqui por estes lados.

Sim, o dia de mercado. Esse começa brilhante, com trânsito congestionado, montagem de bancas de venda, o povo a passar de um lado para o outro da estrada só com os preços mais baixos em mente e o fito de comprar a mais suculenta fruta e as hortaliças mais viçosas, para fazer brilharetes na cozinha o resto da semana.

A D. Lucete enche o carro de duas rodinhas. Ai não, à noite tem lá as duas netas a jantar. As miúdas estão em fase de crescimento e tudo parece ser pouco para aconchegar aquelas santas barriguinhas. Para além disso ainda compra para os filhos que não moram longe e não têm vagar ( o que eu gosto desta palavrinha, que me aproxima tanto das terras alentejanas).

O Sr. Joaquim vai há anos aviar-se à praça, porque a mulher não se dá a esses convívios populares. Já está reformado e diz-lhe a D. Alice que não faz mais nada que a sua obrigação. É o único contributo que dá ao lar. As voltas com o rafeiro não contam, afinal foi ele que o foi buscar.

É certo e sabido. O Panças - nome que lhe deu em homenagem à barriga de nove meses que o acompanha e da qual não se consegue livrar - é presença assídua neste reboliço matinal. Fica a ver o espetáculo, de trela presa ao sinal de passagem de peões. É bicho manso e bem comportado.

Homem bem apessoado, o Sr. Joaquim sai à rua perfumado. Faz negócio enquanto lança charme às moças do peixe e catrapisca os enchidos e os queijos que mais tarde há-de depenicar, enquanto bebe o seu descafeinado, com adoçante, para não engordar.


- Vá, leve lá mais meio quilo que é o nosso melhor cliente - dizem-lhe as filhas da vendedora, que o conhecem desde gaiatas e gostam dele como de um pai.

Quanto mais se desespera, mais tempo se demora  a chegar à estrada principal. O condutor do autocarro apita para o homem da carrinha branca mal estacionada, que a vender a três euros, se perde em manobras para chegar rapidamente com o stock ou é devorado pelo mulherio a esbracejar. 

- Ó amigo, tenha lá paciência! Dê aí um jeitinho à manobra.

Saem casacos, camisolas, sai tudo aquilo de que se possa precisar. Sai cueca, sai peuga e ainda se arranjam outras "utilidades" que não podem faltar.

É o dia da freguesia. Não há nada a fazer. O pequeno comerciante que há em cada um de nós revela-se e é dia de regatear.

Para quem passa a semana dentro duma caixinha de fósforos, perdido entre greves de transportes que se sucedem, dia após dia, e vai certamente chegar atrasado ao trabalho, este é um dia diferente. As pessoas pasmam, à falta de melhor passatempo, a contemplar a azáfama dos locais, enquanto o homem, em pé lá ao fundo, parece prestes a rebentar.

- Esta gente não tem vergonha nenhuma! Fosse eu mais novo...

A mulher, no lugar ao lado, desvia-se, porque tanta predisposição de manhã, é de estranhar.

- Ó senhor motorista, é para avançar? - pergunta o homem, agitado.

Os cafés enchem, neste dia em particular. Pausa para a bica e para a bola de berlim. Senhores, nestes dias arranja-se estômago para frituras logo de manhã e muito mais.

Se a maior aproximação que se pode ter á vida agrícola é a de agarrar um belo molho de nabiças ou comprar uma saca de batata, e fazer parte deste enredo fenomenal, então toca a marchar para os mercados locais!

Para quem gosta de madrugar!!!




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