Brilho

Sempre à espera que os seus dias brilhem!

domingo, 18 de novembro de 2012

À volta dos sapatos



Depois de fazer o turno na fábrica, das oito às catorze horas, o Sr. Vítor vai todos os dias almoçar a casa, onde a mulher o espera, com os melhores manjares que consegue preparar.

À mesa está sempre tudo disposto de forma harmoniosa e apetecível, em travessas delicadas da Vista Alegre que a D. Luísa faz questão de usar, fora dos dias de festa.

Não é raro ouvir o Sr. Vítor admitir à vizinhança que a sua Luísa o agarrou, entre as mil e uma formas que a mulher engendra para enlouquecer um homem, pelo estômago, com toda a certeza. Curiosamente é magro como um rapaz de dezoito anos.

Segue, reconfortado, para o pequeno quiosque/sapataria onde se instalou, lá no bairro, há meia dúzia de anos.

A zona é pacata, mas não lhe falta o seu café, a mercearia, o cabeleireiro, o fotógrafo e a loja dos trezentos.

De porta aberta para a rua, rádio sempre ligado na Renascença, passa as tardes rodeado de botas, sapatos e sapatilhas, por arranjar e em arranjo.

Botins Tabitha Simmons
Botins Tabitha Simmons

Sapatos Tabitha Simmons


Põe poupa solas aos sapatos finos das senhoras, dá nova cara aos sapatos velhos dos homens, repara as botas estropiadas da miudagem.

Não há quem o não procure, quem não o conheça, nas redondezas.

Diz que não está alí para fazer dinheiro e os preços que pratica são mais do que amigos.

- Boa tarde D. Teresa.

Antes de entrar em casa, antes de passar no talho do Sr. Fernando, já pelo fim do dia, quando as pessoas regressam dos seus empregos, a D. Teresa entra no quiosque com um saco de cartão elegente, provavelmente de uma boutique chique.

- Boa tarde Sr. Vítor.

De camisa de seda com laçada, cabelo curto com arranjo de cabeleireiro, saia travada, a terminar um dedo apenas acima do joelho, casaca estilo Chanel, a D. Teresa não descura o visual.

De manhã, em frente ao espelho, é impreterível passar o lápis castanho pelos bonitos olhos verdes, que esconde com os óculos grossos, que as dioptrias não deixam esquecer, e rematar o penteado com um bom banho de laca.

- Como tem passado? Trago-lhe aqui estas alminhas, para ver se têm arranjo. Até estão deformados, de tantas molhas apanharem. Já os salvou no ano passado. Venho saber que diagnóstico lhes faz.

O Sr. Vítor sorri e ajeita os óculos, que lhe escorregam nariz abaixo, enquanto examina ao pormenor o que tem em mãos e se perde em pensamentos.

Aquilo sim é uma senhora. Não é que a sua Laura não seja uma mulher jeitosinha, mas a D. Teresa...que aprumo, que elegância.

Passa quase todos os dias, pelo quiosque, à mesma hora e está sempre impecavelmente apresentada.

Vítor, volta ao trabalho, que o resto é história.

- Acha que ainda valem a pena?

- Então não, com uma pele boa destas, ainda lhe ponho os sapatos finos para mais umas boas invernadas! - diz, com um sorriso rasgado na cara.

- Obrigada Sr. Vítor. É um artista! Que nunca as mãos lhe doam...

- Ora, ora D. Teresa, não me envergonhe. Não faço mais que a minha obrigação.

Gucci

Gucci

4 comentários:

  1. Gosto do Sr. Vítor, mas ainda gosto mais dos sapatinhos. lol


    Muito bom! :))

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  2. Não, acho q não será o seu estilo (lá está, é muito macho para isso! lolol), e ainda assim é Sportinguista - imagina se não fosse! lolol

    Para mim, podia ser mesmo os botins, e até mm os sapatinhos à Cinderela....qq um deles seria a minha cara :) :)

    Mas, e agora a sério, gostei muito da crónica. :)

    "Quem tem imaginação, mas não tem cultura, possui asas, mas não tem pés" - Joseph Joubert

    Estás lá, miúda! :)

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